Ah, segunda-feira! Infelizmente, segunda-feira. Aquele dia amanhecera frio e com nuvens cinzentas. E eu, mal acabara de tirar os pés da cama e já estava a mil. O relatório havia se misturado em meio à mesa bagunçada. O maldito relatório! Atrasei-me muito, procurando e organizando aquelas folhas. Por sorte, achei tudo cinco minutos antes do ônibus passar. Tomei meia xícara de um frio e velho café e saí de casa correndo contra o relógio.
Cheguei toda descabelada no ponto de ônibus, com pilhas de papéis querendo sair de minha mão. Infelizmente, o ônibus acabara de passar e nem dinheiro suficiente para um táxi eu tinha, porque a corrida ficaria cara de mais para ir até o outro lado da cidade, onde era meu trabalho.
Que manhã! Que terrível manhã de segunda-feira! Justo no dia da entrega dos relatórios eu iria ganhar uma falta! E o dinheiro da tão sonhada geladeira seria descontado, por um dia de falta no trabalho...
Desolada, sentei no ponto de ônibus e fiquei pensando naquilo. Por cinco minutos iria adiar uma necessidade da minha casa, por mais um mês! Que vida ingrata!
Fiquei ali, então, por um tempo, fitando o nada. Até que aquelas nuvens cinza transformaram-se em gotas de chuva. E como eu infelizmente ou felizmente, havia ganhado um dia livre, entrei no primeiro ônibus que passou livrando-me de voltar pra casa e tomar chuva.
Sentei-me ao lado de um homem com porte executivo, cabelo bem arrumado, perfumado, trajado de um elegante terno. Fiquei então, me perguntado: ''por que aquele homem, com cara de poder comprar uma geladeira nova todo mês, estava ali, em um ônibus de pobre?''
Meus pensamentos foram interrompidos quando o mesmo homem me perguntou qual era o lugar mais próximo da consecionária de carros, parecia que iria comprar um. Avisei-o que era no próximo ponto, em seguida, ele partiu.
Que inveja senti daquele homem. Eu, pobre funcionária de uma gigantesca empresa que me exige de trabalho, monótonos e infelizes relatórios semanalmente e que me paga, míseros reais por mês. Já, aquele homem bem apessoado, que mal sabia andar de ônibus, estava indo comprar um carro! Sei que moro sozinha, não tenho muitas despesas, mas preciso tanto uma geladeira nova...
Rodei por toda cidade com aquele pensamento, até que o ônibus chegou no parada mais próxima de minha casa. Quando fui descer, vi um magrelo envelope amarelo esquecido no chão, nele havia quatrocentos reais. Olhei em volta e não tinha ninguém ali perto, então, ninguém era dono daquele dinheiro. Guardei-o na bolsa e saí do ônibus com um sorriso de uma orelha até a outra. A geladeira estava paga!
Verônica Antunes.
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